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ensaio aberto
merda
entre farelos e pêlos
de púberes atrizes
nas frestas do assoalho
em camarinhas, coxias
o tempo cicia
inesgotáveis promessas
de liberdade e justiça
suaves mãos de alfaiate
costuram na madrugada
palavras como vestidos
inacessíveis ao tato
não obstante tangíveis
há corpos que se modelam
como se ao vento a campina
como se a dança soasse
e ensurdecesse de música
a noite geral prossegue
por entre estrelas e estréias
e sobre o chão da cidade
de 10 milhões de habitantes
que como todo o universo
passa metade do tempo
com a cabeça pra
baixo
essa gente de teatro
usa o céu como capacho
José Luiz Herencia
Escrito por Zé Luiz Herencia às 11h17
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circulares
as coisas que nos rodeiam
circulam pelo poema
não que o modelem, embora
atravessem sua forma
até o ponto em que a luta
entre o que é dito e a maneira
(essa surda algaravia)
de dizer o que lhe cabe
surpresa: virou poesia
José Luiz Herencia
Escrito por Zé Luiz Herencia às 19h00
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Um novo hino à idiotice
Mais um episódio na conturbada história do Hino Nacional Brasileiro.
Como informa hoje a Folha online, o prefeito da cidade paulista de Araçiguama - que atende pelo ilustre nome de Carlos Aimar (PRB) - esta à frente de uma empenhada campanha para mudar a letra do Hino Nacional Brasileiro. O objetivo principal do nobre legislador é alterá-la em seu aspecto mais "negativo", a saber, o uso do verbo "deitar" no princípio do verso composto para dar início à segunda parte da composição:
"Deitado eternamente em berço esplêndido..."
A nova letra, que parece ser da lavra do próprio prefeito, daria ao hino o tom ecumênico tão esperado pelo "povo brasileiro", que tem na religiosidade um de seus traços mais característicos. E o monstrengo, agora sem métrica alguma, ficaria assim, ó:
"Abençoado eternamente em berço esplêndido..."
Para convencer o eleitor ingênuo, que aliás o reelegeu, Carlos Aimar criou um site para receber votos a favor da mudança, que será encaminhada como projeto de lei à Câmara Federal. Ali, o incrédulo internauta pode, inclusive, ouvir as duas versões da letra: a primeira, de autoria do poeta Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927), e a segunda, de seu êmulo Aimar, na sublime interpretação de Almir Coelho da Silva, o popular (em Araçiguama) Duduca...
Carlos Aimar, além de atuar como prefeito e artista, é também um perfeito piadista. E as glórias desse ex-pipoqueiro se confundem com a vocação vanguardista de Araçiguama. Senão, vejamos:
Entre seus prodígios estão, sem ordem de importância, a criação de um namoródromo (em que casais podem se amassar no carro tranquilamente, sob as vistas de um segurança), o teste prioneiro da arma Taser, de defesa pessoal, com que os policiais da cidade lançam um dardo para anular o controle muscular do inimigo, e a instalação de um cinema em um avião Viscont 58 (usado pelo presidente Juscelino Kubistchek), prodigiosamente montado no alto de uma colina (e acessível para quem está no centro da cidade por intermédio de um bucólico teleférico).
"Ao substituirmos a palavra deitado, estaremos também evitando que no inconsciente popular, especialmente das crianças, ao cantarem o Hino Nacional, estejam festejando a paralisação, adormecimento, a desesperança do país, ao invés de otimismo, esperança, progresso e desenvolvimento, que a alteração contempla de forma definitiva", declarou Carlos Aimar à Folha de São Paulo, através de seu departamento de criação, quero dizer, assessoria...
Tudo isso me faz lembrar do famoso dístico da "Carta aos Icamiabas" (Macunaíma, de Mário de Andrade), com que o personagem ironiza o equívoco das campanhas movidas pela "gente útil do país", aliás uma representação dos paulistas:
"Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são".
A frase, vale lembrar, pode ser entendida como uma resposta de Mário ao discurso sanitarista, endossado, entre outros, pelo escritor Monteiro Lobato, com quem mantinha uma relação nada amistosa (complicada pelo famoso artigo "Paranóia ou mistificação", escrito por Lobato contra a exposição da pintora Anita Malfatti, em 1917, e, depois, pelas críticas à Semana de 1922). O que se vê, todavia, é um debate implícito em torno do tema da "preguiça", comum aos personagens de ambos (Jeca Tatu e Macunaíma).
Tudo isso para pedir aos simpáticos moradores de Araçiguama que deixem o Hino Nacional Brasileiro descansar em paz, já que ao prefeito Carlos Aimar só nos resta, como o piá Macunaíma, bocejando, dizer... "ai, que preguiça!"
_________________
Serviço
Entre no site do Instituto Moreira Salles e ouça a primeira gravação do Hino Nacional Brasileiro, intepretada pela Municipal Military Band (de Londres), em 1901, além de outras 30 mil músicas gravadas no Brasil entre 1902 e 1964.
O Hino Nacional Brasileiro foi composto originalmente para a formação típica de banda. A música, de autoria de Francisco Manuel da Silva (1795-1865), tornou-se popular com uma primeira letra, que comemorava a abdicação de D. Pedro I. Mais tarde, por ocasião da coroação de D. Pedro II, recebeu a letra atual, de Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927). Só foi oficialmente reconhecido após a Proclamação da República (1889), em razão de um concurso que escolheu uma composição de Leopoldo Miguez como novo hino, revoltando a população, já bastante acostumada com a música de Francisco Manuel da Silva.
Francisco Manuel da Silva é também autor de uma das mais populares músicas do século XIX no Brasil, o célebre Lundu da Marrequinha, com letra pra lá de licenciosa de autoria de F. P. Brito:
"Yayá, não teime,
Solte a marreca,
Senão eu morro,
Leva-me a breca.
(...)
Quem a vê terna e mimosa
Pequenina e redondinha,
Não diz que conserva presa
Sua bela marrequinha"
Escrito por Zé Luiz Herencia às 10h44
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Epitáfios
"Rosa, pura contradição. Volúpia
De ser o sono de ninguém sob tantas pálpebras"
Rainer Maria Rilke (1875-1926)
O poema acima é o auto-epitáfio de Rilke, na bela tradução de Manuel Bandeira (que cito de memória). Como falei tanto de cemitérios (ver post de 09/11), deixo aqui uma nota cômica a respeito da frase que criamos, Marcelo Nastari e eu, para a tumba do Tinhorão, com a inabalável certeza de que ele não vai morrer nunca (se é que existe! dizem que anda em Portugal...):
Aqui jazz Tinhorão...
Escrito por Zé Luiz Herencia às 09h14
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The long voyage home
Hoje é dia de viagem: arrumar as malas, conferir esquecimentos... Qual o saldo desta semana? Para onde varri, afinal, a poeira do cotidiano? Em que guarda-móveis depositei meu país, minha gente, meu arremedo de família? Olho em volta e vejo os funcionários do hotel perturbados com algum estranho problema. De que ordem será? Qual sua importância diante do problema maior, que vem para todos à galope, de existir e estar sozinho quando é preciso escolher? Não os compreendo mais... Vou aos poucos ensurdecendo para o español... Meus ouvidos, minhas cordas vocais, tudo se reanimando; e tanto os bocejos quanto a tosse já me escapam da garganta em português do Brasil.
Ponho no bolso do casaco um livro de Ernesto Sábato, comprado por 35 pesos na Livraria Ateneo. O resto de minhas coisas despacharei, com a esperança nada secreta de que se percam pelo mundo. Já me vejo no balcão do aeroporto, entre cínico e feroz, perguntando para o atendente sobre a bagagem extraviada...
Se é assim, por quê eu mesmo não a jogo fora?
Escrito por Zé Luiz Herencia às 08h50
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Vagalumes
No centro do teu vórtice deliro Ferida aberta de mortal beleza Estamos a colher lírios e grilos Enquanto a madrugada corre acesa
Enquanto a madrugada ilumina Cidade e ilha com seu mesmo lume Sou homem, sou feliz e desconheço Saudade, aflição, medo ou ciúme
De nosso forte gozo embriaguei-me O meu, te aquece o colo como echarpe O teu, me adoça a boca como fruta
E vamos vida adentro engravidando Como a provar aos faunos que a semente Do amor vingou no chão da força bruta
José Luiz Herencia
Escrito por Zé Luiz Herencia às 09h21
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Chinatown porteña

O acesso à internet em meu hotel está com problemas. Por isso vim a este café na av. Juramento, próximo ao Barrío Chino, e daqui estou conectado. Aliás, a vertiginosa população chinesa pode ser medida, assim como parte de seus problemas (políticos, econômicos), pela existência das Chinatown em muitas das grandes capitais do mundo. A mais famosa, certamente, é a de Nova Iorque, para onde milhares de americanos se dirigem semanalmente, seja para comprar quinquilharias ou ervas exóticas, ou simplesmente para almoçar em algum dos restaurantes da Canal Street. Há também um bairro chinês no Canadá, além de diversos outros espalhados pela Europa. E não há como negar que em São Paulo há mesmo mais de um: a Liberdade, originalmente japonesa, é hoje também uma Chinatown (o que se vê pelo cardápio sino-nipônico de seus restaurantes), bem como os antigos redutos judeus e árabes do Bom Retiro e da Rua 25 de Março (todo o entorno do Mercado Municipal, a chamada "Zona Cerealista"). A Chinatown porteña não é tão grande assim, e pode ser vista por quem vem de Palermo a Belgrano (pela av. Santa Fe), ou desce a Juramento até chegar as barrancas próximas à linha férrea. Esses povos (a Chinatown daqui também está repleta de taiwaneses) mostram uma enorme capacidade de adaptação, mesmo nas situações mais adversas; e a língua parece uma barreira invisível para eles. Imagine um brasileiro ou um argentino desembarcando hoje para morar com toda sua família em Pequim...
Vou postar outros dois poemas (recentes), escritos em circunstâncias muito especiais, para dizer o mínimo...
Vórtice
Em desalinho o homem se lança ao abismo - um homem e seus passarinhos - Pulam da roda-gigante Brincam no rodamoinho Saltam de asa quebrada Correm mil riscos por nada E continuam sozinhos
Contudo
Miram distantes cenários Cortam inúteis caminhos Pensam que avançam mas voltam E quando os olhos se soltam Abre-se um louco domingo
De águas pegando fogo De placas se proibindo De amores jogando o jogo E rosas se reabrindo
José Luiz Herencia
Escrito por Zé Luiz Herencia às 09h09
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Água furtada
Dois amigos me mandaram e-mail’s pedindo poemas. Como não tenho todos à mão (sobretudo os últimos, ainda manuscritos) decidi enviar esses dois, guardados na memória do computador que eu trouxe comigo para a Argentina. O primeiro, Brutalidade jardim, deve falar por si... Quanto ao segundo (O enigma, publicado aqui em duas partes), vale um breve comentário: foi escrito por ocasião da morte, em janeiro de 2007, de uma pessoa muito importante em minha formação, o professor Bento Prado Jr (ver foto abaixo) – e evoca alguns dos momentos em que o tive por perto.
Brutalidade jardim
Mal redimido da chuva
que sobre a várzea escorria
nos jardins da barra funda
o apavorado dormia
o sono embevecido
dessas ervinhas medrosas
ou dos tímidos canteiros
sempre empestados de bosta
o sol se banha nas águas
espessas da marginal
nas curvas da barra funda,
um grito rouco, um sinal
ouvido na madrugada,
um estampido, um alerta
a morte, na barra funda,
deixou a boca entreaberta
sentado à beira da estrada
de ferro sorocabana
o menino antigo sonha
azuis de copacabana
(ou amarelos geraes...)
com a barriga roncando
volta pra casa abatido
e no espelho lamenta:
- jamais provei ambrosia...
(essa merda não sustenta!)
José Luiz Herencia
Escrito por Zé Luiz Herencia às 20h02
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O enigma
para bento prado jr.

Na mesa do hall do hotel
majestic de lindóia
o seu olhar caprichoso
pesquisou em minhas mãos
vazias de experiência
uma dezena de livros
(e mais ou menos a mesma
quantidade de garrafas
de malte nos espreitavam)
depois do mágico almoço
no “clube dos professores”
palestramos sobre a sorte
de mann e dos buddenbrook
uma espécie de família
prado avant la lettre
que quanto mais envolvida
em dinheiro via sonhos
de cultura destroçados
fomos os dois pelo páteo
à guisa de inofensivos
cafés de chofre mudando
em perigosos conhaques
eu atrevido ostentava
drummondianas completas
furtadas de prateleiras
onde jaziam traídas
por heine schiller novalis
tão logo as mãos eólias
do tempo bateram palmas
escancarou-se o enigma
e uma zona de luz
como um halo recortou-nos
de toda a estudantada
melhor que o livro de jove
ou a comédia de dante
esnobando a musa lusa
que no alto da colina
descortinava segredos
juramos um para o outro
respeito apenas ao gato
viralata vagabundo
que do insano delírio
machadiano brindava
mal começada a leitura
do poema em terza rima
Escrito por Zé Luiz Herencia às 20h01
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e seu miado estridente
nos alertou que o centro
do mistério: a porta
constantemente emperrada
e que chamamos “a máquina
do mundo” (essa miragem)
precisa ser consertada
submetidos ao cerco
da contingência, restava-
nos debruçar sobre o abismo
que em derredor se formava
para assistirmos o sempre
inolvidável espetáculo
a belicosa epopéia
regida pelo universo
e nos lançamos ao éter
mas quando estávamos quase
a duas doses do atrium
sobre seus ombros um velho
chofeur da universidade
reclamou: amigo, basta!
é hora de enfrentarmos
the long voyage home
direto para São Carlos
e à bordo de uma belina
de chapa branca, essa máquina
do mundo automotivo
o professor bento prado
se despediu do incrível
colóquio lido e vivido
Escrito por Zé Luiz Herencia às 20h01
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Buenos Ayres, parte 2

Ontem também fui ao Museu Nacional de Belas Artes (ver foto), um prédio pequeno para os padrões internacionais, mas com um belo acervo constituído a partir de doações da elite porteña na virada para o século XX.
O museu é rico, especialmente, em arte espanhola e francesa, o que se explica pela origem dos doadores (em geral espanhóis) e seus hábitos refinados (ir à França, comprar mobiliário francês, arte francesa etc.). A pintura da Espanha ocupa todo o segundo piso, além de aparecer aqui e acolá no primeiro andar. Com destaque para uma sala dedicada à "escuridão", diga-se, después de Goya. Fiquei impressionado com um óleo de Mariano Barbasán Legueruela ZARAGOZA (1864-1924).
A pintura, intitulada La noche de Walpurgis, mostra a tradicional festa pagã em comemoração à passagem do inverno para a primavera, com seus demônios e mulheres tão apropriados para as tintas fortes do pintor espanhol. Mas o hábito não parece ser característico da península ibérica, e sim do norte e do centro da Europa... Daí a presença de Goethe, que, no Fausto, descreve a ruidosa subida ao Monte Walpurgis, cuja leitura – segundo a curadoria – deu origem ao quadro.
Mas o que chamou mesmo minha atenção, talvez por um certo tom insólito em comum, foram as esculturas.
Entre elas, um mármore italiano de Leonardo Bistolfi (1859-1933), A beleza da montanha, em que uma mulher de brota do penhasco trazendo toda a natureza a reboque. Outra, em barro cozido, de autoria do escultor espanhol Alonso Cano (Granada, 1610-1667), mostra a dramática figura de um anjo arrastando, em uma espécie de manto, a cabeça decepada de São João Baptista...
A terceira, A educação da virgem, cuja autoria, infelizmente, não guardei, é especialmente interessante. Trata-se de uma jovem aristocrata que toma aulas com sua preceptora, o que poderia ser normal, não fosse pelo fato de que a imagem da menina está sem a ponta dos braços (talvez algum acidente), o que não deixa de ser revelador, em se tratando de uma virgem...
Fiquei pouco mais de duas horas no museu, e em seguida atravessei o grande Paseo Recoleta até a Distal, em que comprei alguns livros que apenas mencionarei, já que ainda não tive tempo de lê-los: The Buenos Ayres affair, de Manuel Puig; Últimas historias de hombres casados, de Marcelo Birmajer e Obra Poética, de Francisco Urondo.
Depois falo um pouco deles, e também dos discos que comprei na Musimundo. Agora vou dar uma volta... É primavera em Buenos Ayres!
Escrito por Zé Luiz Herencia às 10h48
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Buenos Ayres, parte 1

Debaixo de uma chuva fraca, diferente da tempestade que caiu logo cedo, segui novamente para a Recoleta, agora com o objetivo de conhecer a famosa necrópole em que jaz com destaque, entre milhares de esqueletos, Maria Eva Duarte de Péron, a popular Evita.
Logo na entrada (ver foto) uma sensação familiar me tomou de assalto: a lembrança das longas caminhadas pelo Cemitério da Consolação, que é muito maior, embora nem todos seus jazigos ostentem mármores e granitos como os daqui, a maioria de Milão.
Ao notar um casal paulistano circulando pela viela principal, imaginei quantos, entre todos os brasileiros que já foram ao Pére-Lachaise ou à Recoleta, terão ao menos pensado em caminhar pelo Araçá ou no São João Baptista, também repletos de belos exemplares da arte tumulária. Na Consolação há obras assinadas por escultores como Victor Brecheret, Luigi Brizzolara e Eugênio Pratti, entre muitos outros...
Recordo agora de Jazigo e cova rasa, obra que Gilberto Freyre logrou publicar – mas cujos originais se perderam –, espécie de reflexão sociológica sobre o morto brasileiro, na tradição de suas interpretações dicotômicas sobre o país, como Casa grande e senzala, Sobrados e mocambos e Ordem e progresso. A esse respeito me ocorrem dois fatos, recuados no tempo, mas vivos demais na memória:
Ainda garoto soube da morte de uma menina, com quem, de vez em quando, brincava na Barra Funda. Paula, ou apenas Paulinha, foi atropelada por um Landau na Rua Conselheiro Brotero, bem em frente de sua casa, em um terreno que hoje é baldio, mas que até o final da década de oitenta abrigou um enorme conjunto arquitetônico transformado - por um espanhol - em pensões de toda sorte.
Seu velório foi realizado no hall de entrada de um antigo palacete da Rua Camaragibe, já na época um cortiço (hoje também demolido), e o cortejo saiu de ônibus da CMTC, azul e branco, fretado especialmente para a viagem que nos levaria – uma pequena multidão – até o distante cemitério de Perus.
Perus, aliás, uma espécie de arquivo do “Esquadrão da Morte”, teria seus dias de “Recoleta” logo em seguida (1985), quando o país assistiu atônito à exumação - em uma de suas covas - do cadáver do médico alemão Josef Mengele (1911-1979), o “Anjo da morte” de Hitler.
Tudo isso vem a propósito quando lembro de uma tese sionista segunda a qual o mesmo Mengele, em sua rota de fuga, veio parar na Argentina (voltei para cá!), e, para sobreviver , lançou mão de seus conhecimentos sobre amputação, retirada de órgãos etc. e abriu uma bem sucedida clínica de aborto... Quando o cerco apertou fugiu depressa para o Brasil e foi viver em Bertioga, no litoral de São Paulo, região banhada – não por acaso – pelo Rio das Almas...
Foi também na Argentina, mais precisamente no subúrbio de Buenos Ayres, que o serviço secreto israelense capturou, em 1960, outro alemão envolvido em crimes contra a humanidade: Adolf Eichmann (1906-1962). Seu julgamento (aliás, um pioneiro espetáculo televisivo organizado por Israel) pôs milhões de espectadores diante de um sujeito franzino, protegido por um vidro blindado, inabalável, e que teria apenas “cumprido seu papel”, a saber, controlar a logística de transporte e execução de milhões de pessoas nos campos de extermínio. Foi para descrever o mais célebre “motorista” do III Reich que Hannah Arendt (Eischmann em Jerusalém, Cia. das Letras - escrito originalmente a pedido da revista The New Yorker) criou a expressão “banalidade do mal”.
A outra lembrança me leva novamente ao Cemitério da Consolação, de que já falei. Numa de minhas pernambulações (para usar uma expressão do Diário crítico de Sérgio Milliet) entrei no cemitério, e, logo à direita, vi um enorme túmulo em mármore negro. A fúnebre escultura retrata uma gigantesca mesa de jantar (com mais de quatro metros de comprimento), em que se vê a figura pesada de um pai, chorando em uma das cabeceiras, ao lado de uma criança que parece esperar sua mãe; o que se confirma pelo olhar voltado para a outra ponta, em direção a uma terceira cadeira, puxada, mas... vazia! “Aujourd’hui mamam est morte...” Assim começa O Estrangeiro, de Albert Camus.
Faço uma pausa para atender o telefone. É minha mãe, ligando do Brasil...
Escrito por Zé Luiz Herencia às 19h48
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Diários de Belgrano
Belgrano é um bairro ao norte do microcentro, de paisagem semelhante à das ruas internas do Leblon. Mas o que ambos têm de parecido para por aí, e talvez no fato de serem habitados por gente abastada. Desta vez fiquei distante de Lavalle e Florida, as ruas comerciais próximas ao Obelisco que tão bem me receberam da última vez. Dei uma volta na Recoleta, mas ainda não fui a Puerto Madero (o que devo fazer hoje ou amanhã) nem à La Boca, eternos destinos do turista idiota que também sou, embora busque incessantemente negar.
Prefiro uma espécie de mistura respeitosa entre o ser estrangeiro, uma condição nada banal, e a vida da cidade em seu movimento natural de cotidiano e loucura. Ou seja, pretendo ser percebido como estranho o mínimo possível. Para tanto, preciso aprender a beber meu tinto ou escolher um postre sem aquele ar de basbaque que transforma qualquer um, mesmo um paulistano da barafonda, em japonês de bermuda tirando retrato com o segurança do Louvre.
Voltando a Belgrano. Hoje saí tarde do Hotel, depois de ter visto o dia amanhecer na varanda (e em Belgrano todas as varandas são enormes). Por volta de 13 horas acenei para os empregados do Howard Johnson Express Inn e me mandei, sem pensar em destino ou finalidade para meu passeio. Segui pela Vuelta de Obligado até a calle Cuba, e estacionei minha máquina de existir no Café Zurich, na esquina com Echeverria.
Precisava matar minha fome mal resolvida e sem muitas lembranças da parillada de ontem à tarde. Depois de pedir um tinto (Trapiche, um malbec de Mendoza, duas garrafas...) e uma água, deixei-me observar com calma o ir e vir das pessoas, enquanto pensava degustar – mas devorava – uma tabla de quesos e fiambres. Como ontem, na Recoleta, não deixei de notar uma certa graça nos jovens estudantes de Buenos Ayres. E os alunos sardentos da escola marista de Belgrano, com seus belos e anacrônicos uniformes – os garotos, com calça curta de tecido social e gravata; as chicas, de saia no joelho e meia três quartos – parecem saídos de uma rua qualquer de Cambridge ou Oxford.
Duas coisas me acertaram em cheio neste café. Uma criança, que passou em direção à Plaza Belgrano (ver foto) de mãos dadas com su madre, mas que olhou em meus olhos como poucas pessoas em toda a vida, e um pássaro que de súbito pousou seu corpinho improvável em minha cadeira; posso dizer que com olhos de igual castanho aos da menina...
Mas há ainda muito o que fazer: quero ir ao Malba, a San Telmo, a Palermo, e o que ouço daqui são os fortes rumores da calçada. Estou no apartamento 21, há poucos metros da rua. Vou agora ler os originais de um romance que um amigo me confiou, cuja cena inicial mostra um judeu brasileiro enfrentando seus fantasmas em um kibutz israelense – e depois pensar o que fazer de mim...
Escrito por Zé Luiz Herencia às 16h58
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